segunda-feira, 23 de maio de 2011

paixão pelo futbol


Destaque da Semana
Termina amanhã a décima nona copa do mundo de futebol. Com o Brasil e a Argentina de fora, pelo menos podemos nos dar ao luxo de torcer pelo bom futebol. Isso porque, numa imaginada final entre os dois rivais, pouco importa para o torcedor a qualidade do futebol. Vale gol de mão, em impedimento,com falta no goleiro, no último minuto da prorrogação. Mas, numa situação rara, pois o futebol adora ser uma caixinha de surpresas, enfrentam-se na finalíssima duas das seleções que apresentaram o melhor do futebol do torneio: Espanha e Holanda.
A Espanha chegou como uma das favoritas, trazendo na bagagem o título europeu de seleções conquistado frente à poderosa Alemanha, novamente batida na semifinal. Com um futebol rápido, incisivo, criativo, a Espanha vai tentar apagar a fama de lutar, lutar e sempre morrer na praia.
A Holanda vem de uma campanha impecável, atropelou todos os seus adversários e desbancou o sempre favorito Brasil. Quem sabe, a novíssima laranja mecânica vá fazer justiça às equipes das copas de 74 e 78, quando o fantástico carrossel imaginado pelo técnico Rinus Michels e comandado pelo genial Johan Cruijff maravilhou a todos, mas não levou a taça, perdendo na final para a própria Alemanha e para a Argentina, respectivamente.
É… esta final tem tudo para ser um belo espetáculo de futebol.
Por isso, o Rádio Vivo, em véspera de decisão, quer destacar a crônica do jornalista e escritor Xico Sá, colunista da Folha de S.Paulo, publicada na Revista ESPN de Maio deste ano. Ele diz:
“Uma das coisas mais admiráveis no futebol é a possibilidade de cada torcedor ver de uma forma um mesmo lance polêmico. Mil câmeras, mil recursos modernos, porém, não tem acordo, não tem jeito. Não há tira-teima para o olhar marejado pelas paixões clubísticas. Falta de sensatez, cegueira, paixão burra e desmedida? Nécaras. Somos totalmente fiéis às nossas retinas naquele momento. É o que vemos mesmo.
Não é o caso de simplesmente querer levar vantagem e criar uma versão para o que testemunhamos. Não se trata de sermos mentirosos a favor dos nossos clubes no instante do lance. É tudo o que vimos, à vera, com os olhos que a terra biblicamente há de comer. E pronto.
Não é nada igual à queda que temos com a mulherada. Nem chega próximo. Por um detalhe assim nem tão pequeno de nós dois: o amor por uma mulher passa, pelo time do coração é para o resto da vida. (…) No futebol, a loucura é ad infinutum, para século seculorum, amém. Se por um rabo de saia cegamos por um tempo, pelo clube e pela seleção o amor já nasce, cresce e morre cego. O torcedor sensato não existe. É uma fraude. Sensatez é qualidade (ou defeito) de comentarista, de profissional da área, de quem vive disso.
Quando disse que o videoteipe era burro, ainda no tempo em que a TV cobria os jogos com poucas câmeras e sofisticação zero, o tio Nelson explicava, qual um Freud ludopédico e pó de arroz, essa cegueira toda.
Mil geringonças e modernidades depois, os cavalheiros das mesas redondas repetem mil vezes um lance e até chegam às suas conclusões. Os torcedores não. Na hora do embate, nem se fala, cada um vê conforme suas camisas. E vê mesmo. Não está blefando ou de olho apenas no resultado da peleja.
(…)
Comparar com o amor ou a paixão por uma mulher qualquer é até covardia da parte do cronista. Se guarda alguma semelhança é com o amor de mãe. Mais o que ela sente por nós do que nós – mesmo com todo Complexo de Édipo Futebol Clube – sentimos por ela. Uma mãe pode ver mil vídeos com o filho roubando, flagrante delito, que mesmo assim o defende. E não defende simplesmente para o livrar da cadeia. É que não consegue enxergar, hora alguma, o seu rebento naquela situação desagradável ou fraudulenta. Mesmo assim é um fanático flamenguista, um atleticano idem, um palmeirense maluco, um corintiano roxo, um cego pelo Sport, um tricolor baiano, um vascaíno que tatua a pele com a cruz de Malta, um doente de qualquer praça ou clube.
O amor carnal é vesgo, míope, tem muitos defeitos e variações, mas cego mesmo de tudo, de nascença, somente o amor materno ou o amor ao time do peito, à seleção do coração”.
Terminada a Copa, voltamos à nossa paixão doméstica, ao amor desvairado pelo time que esse ano há de ganhar, há de ser campeão…

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